O Irlandês (2019)

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No início do filme, ao som de uma música que percorre um lar de idosos, um De Niro em fim da linha, numa cadeira de rodas, rouba a voz ao narrador. Usa da palavra para se resumir pintor de casas. Logo percebemos que a descrição da sua profissão não é literal. O Irlandês, novíssimo de Scorcese, conta a história verídica de um assassino a soldo da máfia italo-americana, Frank Sheeran, responsável por milhentas mortes.


Feito de idas ao passado, o filme mostra diversas fases da vida de Sheeran. No presente da ação, é um velho, viúvo, já sem os seus amigos e companheiros de armas e com uma relação difícil com as filhas, que cresceram lado a lado com a sua fama e proveito e o condenaram a uma relação distante ou até, violentamente inexistente (a filha que deixa de lhe falar é a única juíza que lhe dá uma pena que custa cumprir). É neste presente, que vemos Frank a escolher um caixão e uma gaveta onde passará os anos que se seguem à morte. Não quer ser enterrado, a gaveta parece-lhe “menos final”.


No passado mais remoto, é um jovem (rejuvenescido por efeitos especiais) vindo da II Guerra Mundial, que conduz um camião, é sindicalista e tem já uma queda para a desonestidade. Pelo meio, dois períodos marcantes. Um, a convivência com Jimmy Hoffa (Pacino), figura central do sindicalismo (às tantas diz-se que nos EUA, mais poderoso do que ele, só o presidente) que primeiro protege, depois se torna amigo íntimo e depois, mata (Sheeran confessou o crime em 2003, depois de quase trinta anos de mistério à volta do desaparecido de Hoffa).


A morte de Hoffa marcará o resto da vida de Frank. Desde logo, a filha (Anna Paquin), percebe logo o que aconteceu e condena o pai ao silencio, para sempre e o próprio, sabendo que tem que compre a ordem, condena-se (fabulosa cena a do telefonema feito à mulher de Hoffa). Outra ida ao passado, central é a roadtrip com Russel e as respetivas mulheres, rumo a um casamento, com diversas paragens pelo caminho. É aqui que vemos como o duo se conhece, sem falar e que cumpre sem hesitar o seu trabalho. Há outros períodos marcantes, como uma estadia na prisão com um Russel decadente e tremulo que começa a ir à igreja combater a ideia de finitude.


Scorcese volta ao seu tema de eleição: o submundo do crime. E como sempre, usa-o como veículo para dizer outra coisa. O Irlandês fala de pessoas e fala sobretudo de velhice e decadência. De como o fim está sempre próximo e homens poderosos como Russel passam de dominantes a velhotes que não partem o seu pão sozinhos; de como o segundo homem mais poderoso de um país pode ser eliminados por aqueles que julgava dominar e como um soldado, camionista, sindicalista e assassino pode acabar por perder as forças.

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