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A mostrar mensagens de janeiro, 2016

Quatro Haiku

Espuma do mar, Abraços infinitos. Barcos a voltar. ♠ Chegamos à terra, À praia de aguas tantas. O mar que navega. ♠ Compassos e luas. No zodíaco, os dias. Que horas são as tuas? ♠ Me acompanha A sorte de ouro: viver, Morrer em Espanha.

Arvo Part e a Poética do Silêncio

  Arvo Pärt subverte o silêncio — ele não é ausência; é transfiguração. O silêncio é cúmplice, uma voz gêmea que mais e mais se esconde e, por isso mesmo, mais e mais se deixa entrever. Como um novelo de sensações, cores e sabores, tudo é muito tênue, frágil. Mas há vigor e ausência de frouxidão. Não há adiposidade de dramas, senão tudo na dosagem precisa, uma alquimia perfeita que do nada faz-se ouro. Máxima atenção aos cantos, aos seus choros, aos seus nadas. Como um poeta simbolista que mais sugere o objeto que o descreve em pormenores, Pärt sabe precisamente o que quer: seu realismo é sobretudo imaginativo . Tudo é magia, um conto de fadas entre sombras que descansam sobre a terra. E como um longo longo poema estendido sobre a esfinge dos anos, uma epopéia de povos e esquecimentos entre Ozymandias e reinos abandonados, suas composições fazem o reviver de reminiscências e memórias. Desse assombro, o que nos resta é apenas um sol fulgurante, eco inatingível que faz repousar a paz ete...

O Discurso Musical de Henryk Górecki

Em Henryk Górecki notamos um percurso musical acidentado, indo da mais extremada atonalidade ao que poderia ser identificado como tendência neo-romântica. Partindo da constante utilização do pontilhismo weberiano — somado à fixação quase obsessiva pelos timbres — aos poucos foi se aproximando, nos idos de 1960, de compositores como Luigi Nono, Karlheinz Stockhausen, Krzysztof Penderecki e, principalmente, Pierre Boulez. Em razão disso, suas composições sempre foram identificadas por possuírem arquétipos que moldam e universalizam não apenas melodias e harmonias, mas também o instinto de ruptura e objetividade artística.  Todavia, o esgotamento daquelas experiências-limite (autenticamente serialistas) fez com que Górecki, nas décadas seguintes, fosse cada vez mais se adiantando às formas musicais tradicionais. Importante ressaltar que o tradicionalismo das composições das décadas de 1960-70 é apenas aparente e superficial; dir-se-ia provocativo e construtor. São obras cuja composição pr...

The Revenant (2015)

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Sigo com admiração a carreira de Alejandro Gonzázez Iñárritu desde que vi Amor Cão , em 2000, protagonizado por então desconhecido Gael Garcia Bernal. Fiquei depois arrebatado por 21 Gramas (2003) e bastante convencido com Babel (2006). O mexicano filma o sofrimento humano extremo com mestria e faz uso superior da fotografia e de técnicas únicas de filmagem (os planos diabólicos de Birdman mostram bem isso). Regressa agora com um filme de época, The Revenant, piscando o olho à câmera contemplativa do mestre Malick (muitas vezes me lembrei do quase ignorado O Novo Mundo) e dando o seu toque de sofrimento. Aliás, Glass (Leo Di Caprio com Óscar garantido), sofre como poucas personagens terão sofrido na história do cinema. Em quase três horas, os espetadores estão tensos na sua cadeira, à espera da próxima sangrenta desventura do protagonista. Mas voltemos atrás. Nos anos 1820, um grupo de caçadores de peles, algures nas Montanhas Rochosas , já com um bom saque, prepara-se para voltar pa...

Soneto Primeiro

Death, thou shalt die.| John Donne   Tive no peito sal que não era mar. Dizia-me coisas que não sei, inverno d’alma, infausto e crepuscular. Era sonho de pedras, aberto   caminho de dois mundos, desdobrado como destino, franjas de terra nua.  Era febre o barro da encosta, asco de faces e dores que jamais se curam.   Secreto era o fundo que refletia mil sóis de treva, único interprete com que me via, sacudido na viva   carne final do Juízo, redimida entre luas e sortes, filho que pede vida entre a morte, a paz definitiva.

A Visita (2015)

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Night Shyamalan começou a sua carreira em grande com O Sexto Sentido (1999), O Protegido (2000), Sinais (2002) ou A Vila (2004). Depois, perdeu gás. A Senhora da Água (2006) ainda era interessante mas O Acontecimento (2008), O Último Airbender (2010) ou Depois da Terra (2013), nem isso. O único produto de qualidade a que o seu nome esteve ligado nos últimos 11 anos foi Wayward Pines, série de suspense que produziu que realizou num dos episódios. Tudo isto para dizer que em A Visita (2015) nada melhora. Shyamalan conta uma história pouco sólida, sem grandes surpresas nem desenvolvimentos dignos de um mestre do suspense como ele foi e pode voltar a ser. Dois miúdos, Tyler e Becca, vão passar uma semana a casa dos avós. A mãe, que fugira de casa em adolescente, não mais quer ver os pais e manda os petizes sozinhos para lhes dar a oportunidade de conhecerem as suas raízes. Mas, aparentemente simpáticos, os dois idosos começam a revelar comportamentos estranhos, principalmente durante a noi...

Um Momento de Perdição (2015)

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Dois amigos, Laurent (Vicent Cassel) e Antoine (François Cluzet) levam as suas filhas adolescentes para umas férias de verão tranquilas. As jovens e belas Louna (Lola Le Lann) e Marie (Alice Isaaz) passam os dias a tomar banhos de sol e as noites em discotecas, como seria de esperar. Até ao dia em que Louna começa a olhar para o pai da amiga com outros olhos, despindo-se à sua frente e beijando-o. Esses segundos de hesitação vão perseguir Laurent o resto do verão, à medida que Louna se diz loucamente apaixonada, já que se arrisca a perder a confiança da sua filha e do amigo. Uma interessante versão de Lolita, onde Lola Le Lann cumpre na perfeição o papel de pequena femme fatale.

O Escultor (2015)

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    O momento em que David conhece Meg.   David Smith ainda não chegou aos 30 anos e já se acha um falhado. Escultor, vive longe dos seus melhores dias, após ter gozado de alguma fama. Sem dinheiro ou grande inspiração, nós, leitores, vamos encontra-lo deprimido num bar, a beber cerveja no dia dos seus anos. Eis se não quando, junta-se-lhe o seu tio Harry, que não via há muito. Descobrimos depois que os pais e irmã já morreram e que David está sozinho no mundo, tendo apenas um amigo em Ollie, amigo de infância que trabalha também no ramo da arte. Com um cenário tão solitário, o tio Harry é muito bem-vindo. Mas, o familiar não é quem parece ser. Trata-se afinal d`A Morte, que lhe propõe um negócio: ele, David, pode esculpir o que quiser a partir de qualquer material em que as suas mãos toquem, podendo assim procurar deixar uma marca no mundo. Em troca, só tem mais 200 dias de vida. David aceita. Acompanhamos então David nesses seus últimos 200 dias, onde, a espaços, cria as suas mais be...

Aí estão os nomeados para a estatueta dourada

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Mad Max apontado para melhor filme. Di Caprio em busca do primeiro Óscar.

Alan Rickman (1946-2016)

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Pyongyang (2003)

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À chegada ao país recebeu um ramo de flores. Depois percebeu que este deveria ser depositado junto à estátua do líder supremo.   Numa altura em que a Coreia do Norte desperta as atenções do mundo , é uma boa altura para dar atenção a algumas manifestações culturais que retratam o dia-a-dia daquele país. Sendo um país tão fechado, poucos são os estrangeiros que lá entram e podem contar o que viram. O português José Luís Peixoto foi dos poucos. Passou alguns dias na Coreia do Norte (sem telefone) e escreveu Dentro do Segredo , editado em 2012 e devorado por este vosso amigo em poucos dias. Se para os habitantes, o quotidiano terá pouca piada, para nós, meros observadores, o sistema castrador revela-se "interessante". Mais recentemente vi The Propaganda Game , de 2015, do espanhol Alvaro Longoria, que teve oportunidade de visitar o país e fazer um documentário no qual vimos a Coreia por dentro, como nunca antes a tínhamos visto.   Mais antigo (2003) mas mais recente no meu consu...

Afinal Bowie era mortal.

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A notícia surpreendeu o mundo . Aos 69 anos, David Bowie, uma das maiores e melhores figuras da cultura pop, morreu. A choque deve-se sobretudo ao facto de todos acharmos que Bowie era imortal. Afinal não. Bowie era humano e não resistiu a um cancro, perdendo uma luta de 18 meses que não sabíamos que travava. Como se não bastasse o seu longo e frutuoso caminho artístico, não se quis despedir sem que, dias antes de morrer, fosse lançado Blackstar , 25.º álbum, de onde se extrai o viciante Lazarus . Mas, êxitos não faltaram. Pensando apenas uns segundos, lembro-me de Life on Mars; China Girls; Heroes; Let´s Dance; Ashes to Ashes, The Man Who Sold The World (daria azo a uma fantástica versão dos Nirvana) ou Under Pressure (com Fredy Mercury ). Bowie viveu duas vezes. Uma como ele próprio, com diversas fases e outra como Ziggy Stardust, uma personagem que criou e o absorveu. Soltou-se a tempo de evitar a loucura mas desse período saíram algumas canções geniais. Mais sobre o génio aqui .

Golden Globes: The Revenant é o grande vencedor

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 A antecâmara dos Óscares falou. The Revenant, último de Alejandro Iñárritu dominou. Foi melhor filme, o realizador mexicano foi o melhor realizador e Di Caprio (finalmente, a estatueta dourada?), o melhor ator. A ansiedade pela estreia é agora ainda maior. Lista completa de vencedores.

Cinema por acaso (6): Bride & Prejudice (2004)

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 Adaptado do clássico de Jane Austen, "Pride and Prejudice", publicado pela primeira vez em 1813, este "Bride & Prejudice" ("Noiva Indecisa" na versão portuguesa) é um belíssimo filme indiano, que recontextualiza o argumento de Austen e nos coloca diante dos dilemas da sociedade indiana, entre o amor e o casamento combinado, entre o amor e a estabilidade financeira, entre os padrões de uma sociedade de castas e as mudanças impostas pelos tempos que correm. É, também, uma narrativa sobre preconceito, estereótipos criados pelo olhar americano, sobre os dilemas dos indianos emigrados, caricaturados na figura de Mr. Kohli, e os que desejam emigrar, sobre o olhar do viajante e a verdadeira Índia. Tudo isto com humor e muita música, e a beleza de Aishwarya Rai e Shivani Gha, bem ao jeito de Bollywood, arrecadando uns razoáveis 6.2 no IMDB .

A Rapariga no Comboio

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O Francisco já havia escrito  sobre este tão aclamado livro de Paula Hawkins. Quantos de nós não nos encontrámos já a imaginar vidas para os demais que vemos para lá das janelas? É precisamente dessa ideia que parte "A Rapariga no Comboio". Um  thriller  sobre vidas cruzadas para lá da imaginação, segredos guardados, vidas onde a realidade transforma a fantasia do ideal em sombras e dias cinzentos. Todavia, não o tomo nem por um thriller  arrepiante nem por um livro que nos agarra desde o começo. Ao contrário dos policiais de Camilla Läckberg, para citar um caso feminino atual, este  thriller de Paula Hawkins é, até meio da narrativa, aborrecidamente feminino, ao explorar em excesso os dramas emocionais de Rachel que só a espaços contribuem para o desenrolar da ação. Nesse sentido, a escritora sueca consegue oferecer-nos um olhar feminino universalista, enquanto Hawkins parece escrever um  thriller para mulheres. Não obstante, "A Rapariga no Comboio" é um bom livr...

Os melhores do ano: livros

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  Submissão, de Michel Houellebecq – Extremamente atual, este Submissão faz-nos viajar até à Paris de 2020, numa altura em que a França começa a ser, pouco a pouco, dominada pela Fraternidade Muçulmana, um novo partido. Enquanto existem rumores que esta força política tem boas hipóteses de chegar ao poder, François, professor universitário vive dominado pelo tédio, apenas cortado por fugazes relações com alunas. François vê-se então “preso” num país onde sempre viveu mas onde começa a não se sentir em casa.   A Rapariga no Comboio, de Paula Hawkins – Este best-sellers coloca-nos dentro da cabeça de Rachel, uma jovem desempregada inglesa cujo único consolo é beber. Beber e olhar pela janela do comboio que apanha todos os dias (fingido ir trabalhar) fingindo viver vidas que acha serem melhores do que a sua. Obcecada pelo ex-namorado, Rachel vê-se envolvida num crime, no mesmo bairro onde ele vive.   Dicionário Sentimental de Futebol – Rui Miguel Tavares transpõe para estas páginas peq...

The Last Kingdom (2015)

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Algures no Séc. IX, Uhtred procura o seu lugar na Inglaterra, então dividida em vários reinos, todo sob ataque dinamarquês. Nascido um nobre saxão, vê o seu pai ser morto por vikings e é como guerreiro dinamarquês, filho adotivo de Ragnar, que cresce e vê a sua vida. O seu pequeno reino, que deveria ter herdado do pai, é agora pertença do tio que só o quer ver morto. Ainda assim, Ragnar vive bem na sua nova pele e vê em Brida, também uma saxã criada por dinamarqueses, uma companheira para a vida.   Tudo muda na vida de Uhtred quando Ragnar e quase toda a sua família é morta num ataque surpresa a meio da noite. Com um rumor a correr de que fora ele próprio a matar a família que o adotou resta-lhe fugir e tentar provar a sua inocência. Acaba por se juntar a Alfredo, Rei de Wessex e que, apesar da sua doença crónica, mostra ter fibra para expulsar os dinamarqueses e unir toda a Inglaterra.   Uma bela série, com a marca Netflix, sobre o nascimento de Inglaterra e as invasões vikings à Grã-...